Tem um canguru em casa! E daí?

Profa. Ida Kublikowski (Psicologia) fala sobre o preconceito em torno de famílias que acolhem filhos adultos

por Thaís Polato | 08/05/2017 - 12h
Thaís Polato

Adultos que continuam morando com os pais. Eternos adolescentes. Pais que aceitam dividir a casa com filhos adultos. Família disfuncional. Estudiosa do ciclo vital humano, docente do Pós em Psicologia Clínica e pesquisadora do Núcleo de Família e Comunidade, a profa. Ida Kublikowski quer afastar tais estigmatizações das famílias cujos pais e filhos adultos seguem morando sob o mesmo teto.

Na Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira (2014) o IBGE afirma que a opção de viver na casa dos pais “pode estar ligada ao prolongamento e à maior dedicação dos estudos”. Outros fatores importantes seriam relacionados “a questões financeiras que poderiam manter os filhos dependentes dos pais por períodos mais longos, casamento mais tardio e fatores emocionais”, afirma o instituto.

O fenômeno é crescente e ganhou o nome de “geração canguru”. Dados do IBGE demonstram que mais de 20% da população brasileira entre 25 e 34 anos não deixou a casa dos pais, mesmo tendo autonomia financeira e boa escolaridade. A pesquisa mostra ainda que 60% deste público são homens.

Com apoio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq) e em parceria com a doutora pela PUC-SP Clarissa Magalhães Rodrigues, a profa. Ida publicou artigo em 2016 no qual defende que morar com os pais não retira do jovem a condição adulta. “Quisemos ampliar o olhar sobre as possibilidades de construção das trajetórias de vida na contemporaneidade, por isso falamos em gerações canguru, no plural”, afirma.

Para a professora, não se trata de ignorar a existência de famílias em que a coabitação entre pais e filhos expõe dinâmicas familiares disfuncionais. “Esta, no entanto, de modo algum, é a única realidade possível”, afirma Ida.

Leia a seguir a entrevista que a docente concedeu ao PUC-Jornal

 

PUC-Jornal – Por que resolveu abordar a geração canguru?

Ida Kublikowski – Meu trabalho sempre foi na área do desenvolvimento humano. No caso da denominada geração canguru quis saber, do ponto de vista da literatura em Psicologia, por quais motivos ela estava sendo estigmatizada. Por que permanecer na casa dos pais significaria estar emaranhado com a família, não conseguir autonomia? Eu e Clarissa (co-autora do artigo) dialogamos com produções acadêmicas dos últimos 25 anos sobre a transição para a vida adulta, tendo o foco na geração canguru. As pesquisas acabaram por evidenciar que existe, sim, um emaranhamento com a família, mas este dado não deve ser generalizado. A coabitação entre pais e filhos pode ser uma possibilidade de arranjo doméstico que não coloca em risco, obrigatoriamente, a condição adulta dos jovens. Por isso propomos o termo no plural, “gerações canguru”.

PUC-Jornal – O que é ser adulto?

Ida Kublikowski – Na bibliografia que estudamos a transição para a vida adulta era muitas vezes descrita por fatores estanques como ter autonomia financeira, sair da casa dos pais, casar, ter filhos. No atual contexto social, de trajetórias familiares e pessoais tão diversas, em um momento de dificuldade para entrar no mercado de trabalho ou de aposta na continuidade dos estudos por mais tempo, e até da existência de maior liberdade na casa dos pais, estes marcos não são mais suficientes para explicar ou determinar a chegada da vida adulta. Também observamos que, ao abordar a geração canguru, poucos estudos se profundavam no olhar dos próprios filhos. Então lançamos um questionário na internet, no qual perguntávamos a jovens em qual das categorias “me considero adulto”, “não me considero adulto” e “não sei se sou adulto” eles se encaixavam, tivemos resultados muito interessantes.

PUC-Jornal – Quais a sra. destacaria?

Ida Kublikowski – Casamento e filhos fazem parte das expectativas destes jovens, mas apenas como opções entre outras possíveis ou como algo a ser concretizado mais tarde. As aquisições de responsabilidade e de autonomia é que apareceram em primeiro lugar como características de adultez, sinônimos de “ser responsável pela própria vida e pelas próprias escolhas”. Precisamos considerar, porém, que não existe autonomia absoluta. O grande desafio na vida adulta é justamente desenvolver uma autonomia conectada, ou seja, ao mesmo tempo fazer escolhas e manter relacionamentos interpessoais conectados. A construção do ser adulto continua concentrada na família, mas não mais em percursos pré-definidos. Há uma relativização de valores e expectativas sociais.

PUC-Jornal – Como a família contemporânea lida com estes novos aspectos?

Ida Kublikowski – A família contemporânea passa por profundas modificações, a todo momento aparecem novos arranjos, dinâmicas diferentes, o modelo tradicional já não é mais suficiente para defini-la. No entanto, é importante dizer que a construção da vivência é sempre inter relacional, ou seja, se existe um jovem completamente dependente existe também um contexto familiar que não altera a dependência. Não ignoramos a existência de famílias em que a coabitação entre pais e filhos expõe dinâmicas familiares disfuncionais. Por outro lado, há o que chamamos de famílias solidárias, que formam uma rede de solidariedade e respeito para “abraçar” os filhos por um período mais estendido, sem que isso represente nenhuma patologia. Em meu artigo, cito pesquisas realizadas em 2014, sobre o ciclo vital de famílias brasileiras das camadas médias urbanas, que constataram que mais de 60% das famílias canguru não têm dificuldades em relação a ter filhos coabitantes. Este dado também se torna relevante se levarmos em conta que os pais e as mães observados foram criados em uma cultura tradicional em termos de valores para a transição da vida adulta.

PUC-Jornal – Como a psicologia pode colaborar para uma visão mais ampla em relação aos novos arranjos familiares?

Ida Kublikowski – Primeiro, adotando sempre uma postura crítica, não naturalizando os estágios de desenvolvimento como se fossem verdades absolutas. Temos de ser muito cuidadosos com as teorias, porque elas estão aí para serem revistas. Não existe uma sequer que consiga abranger a realidade como um todo. Cabe a nós a sensibilidade de desconstruir e perceber que toda pesquisa envolve teorização, mas também observação empírica da vivência das pessoas. É o que nos permite reformular a maneira de pensar sobre elas. Em relação ao desenvolvimento, a psicologia considerava o adulto um ser cristalizado, que não mudava mais durante a vida. Essa posição vem sendo revista, no sentido de mostrar que mudanças ocorrem do berço ao túmulo.

“O termo ‘geração canguru’ vem sendo socialmente utilizado para designar famílias nas quais os filhos permanecem coabitando com os pais, mesmo após atingida uma idade na qual já poderiam ser considerados adultos. A origem do uso do termo encontra-se no reino animal, no qual essa espécie de mamíferos, denominada marsupial (do latim marsupium, que significa “bolsa”), carrega seus filhotes em uma bolsa ventral, no interior da qual a cria, nascida prematura, completa seu desenvolvimento (Ferreira, 1999). Nesse sentido, convém especificarmos que, alinhando-nos à experiência de finalizar o desenvolvimento atribuída aos cangurus filhotes que permanecem junto à mãe, propomos uma noção de “geração canguru” como aquela na qual os filhos permanecem no lar parental, ou a ele retornam, recebendo dos pais alguma forma de suporte, financeiro ou emocional, ao longo do processo de transição para a vida adulta ou quando já atingida a adultez”

Trecho do artigo “Gerações-canguru: novos contextos, novas expectativas” (2016), de Ida Kublikowski (profa. da Graduação e Pós-Graduação em Psicologia Clínica) e Clarissa Magalhães Rodrigues (doutora pela PUC-SP, em Psicologia Clínica).

 

 

 

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