PUC SP na Mídia: Rejeição de indicado ao STF abre debate sobre efeitos institucionais
Prof. Georges Abboud comenta ao Times Brasil as implicações da decisão do Senado.
Em 2009, ao participar de um Congresso Internacional de Radiologia, a médica sorocabana Mônica Bernardo conheceu um programa norte-americano, criado um ano antes, que comprovava a necessidade de reduzir as doses de radiação contidas nos exames de imagem realizados em crianças. “O fato de suas células estarem em desenvolvimento torna-as mais sensíveis aos efeitos colaterais desses procedimentos”, explica. Desde então, Mônica tem se dedicado a disseminar esse tema pelo Brasil e, consequentemente, participou de encontros científicos nacionais e internacionais.
Tese sedimenta o que viria a se tornar um tema nacional
A tese de conclusão de Mônica Bernardo para o Mestrado Profissional em Profissões da Saúde, promovido pela PUC-SP no campus Sorocaba e do qual ela participava, era intitulada “Reduzir a dose de radiação em crianças que realizaram tomografia computadorizada de crânio não traz prejuízo ao diagnóstico, motiva a educação permanente e promove campanha de radioproteção”. O orientador foi o professor Fernando Antônio de Almeida, atual vice-reitor da Universidade. 
Publicações recentes demonstraram a análise de indicativos que revelavam uma maior incidência de câncer e catarata em crianças submetidas à tomografia, em comparação àquelas sem exposição. Também apontou-se o fato de que a quantidade de exames radiológicos estava aumentando significativamente – sobretudo nos jovens pacientes que haviam sofrido trauma crânio-encefálico.
De acordo com Mônica, os objetivos da sua tese eram avaliar se a redução da dose de radiação em tomografias computadorizadas de crânio prejudicava a interpretação do exame e o diagnóstico em crianças com trauma crânio-encefálico, assim como desencadear, no ambiente de trabalho da área da saúde, a discussão e implementação de medidas capazes de reduzir a dose de radiação recebida por crianças. Paralelamente, buscava-se a conscientização dos pediatras, profissionais da saúde e familiares.
Unimed do Brasil transforma tese em programa
Um ano depois, em 2010, ela apresentou à Unimed Sorocaba uma proposta para que fosse implantado o seu projeto, promovendo um Programa de Proteção Radiológica. Este foi aceito pela instituição – cujos quadros médicos incluem Mônica.
Já em seu primeiro ano, a iniciativa resultou numa redução de 22% na quantidade de exames pediátricos contendo radiação, sem qualquer prejuízo ao diagnóstico dos quadros clínicos.
O sucesso fez com que a cooperativa médica sorocabana transformasse esta tese num programa permanente, que perdura até hoje.
Espelhada nesse dado positivo e em diversos estudos realizados por algumas das mais respeitadas autoridades e entidades mundiais na área de radiologia, a Unimed do Brasil também o adotou.
Uma mudança de cultura
“Trata-se, acima de tudo, de uma mudança cultural nas unidades de saúde e em profissionais de diversas áreas, como, por exemplo, médicos, enfermeiros e técnicos de radiologia”, sintetiza o professor Fernando Almeida. “Aqui, na PUC-SP, nosso estudo já estimulou o surgimento de quatro trabalhos de iniciação científica. Ele tem atraído muitos acadêmicos, residentes e docentes à discussão dessa problemática, assim como estimulou o Hospital Santa Lucinda, parte integrante do Complexo PUC-SP em Sorocaba, a criar seu próprio programa de proteção radiológica, ainda em 2016”, complementa Mônica.
Convites das principais entidades de radiologia e energia atômica
Num momento em que a saúde discute os mecanismos de segurança do paciente, a proteção radiológica se tornou um dos itens de maior relevância nesse contexto. Também por isto, a médica sorocabana participou e expôs seu trabalho em congressos nacionais e internacionais, como aqueles promovidos pelos colégios Europeu, Americano (o principal do mundo) e Brasileiro de Radiologia.
Neste último, em reunião privada, Mônica foi convidada a expor o seu estudo a um grupo de líderes mundiais envolvidos na proteção radiológica e pertencentes à Agência Internacional de Energia Atômica.
Para o professor Fernando Almeida, o trabalho desenvolvido por Mônica Bernardo no Mestrado Profissional reflete muito bem o papel primordial da Universidade: produzir conhecimento, servir à comunidade e provocar transformações a partir da indução de condutas e comportamentos positivos.
Curso de mestrado profissional como agente modificador
Outro ponto destacado por ele é que, até pouco tempo atrás, os cursos de mestrado eram, basicamente, acadêmicos. “Contudo, o mestrado profissional vai além disso, pois tem um componente importante e adicional – modificar o trabalho das pessoas.” Tamanha é sua relevância que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) já lançou edital de doutorado profissional, nível ainda inédito no Brasil.
Tanto o vice-reitor da PUC-SP quanto a radiologista Mônica Bernardo entendem que a proteção radiológica voltada às crianças altera uma cultura enraizada, principalmente entre os pais e responsáveis. A radiação dos exames de raios-X e tomografia computadorizada pode provocar resultados indesejáveis nos tecidos humanos quando utilizada repetidamente, pois tem efeito cumulativo no organismo.
É por esta razão que os médicos sempre procuram considerar se o exame realmente é necessário ou se é possível obter o diagnóstico por outro método sem radiação ionizante – como os exames clínicos ou, até mesmo, o ultrassom, que não requer radiação alguma.
Comparativos preocupantes
Para se ter ideia, uma radiografia frontal simples corresponde a um dia inteiro de radiação natural (que pode ser de origem solar – isto é, infravermelha e ultravioleta – ou cósmica); uma tomografia no crânio, a oito meses; e uma tomografia de abdome, a 20 meses. Além disso, a dose de radiação se multiplica de acordo com o número de execuções desses procedimentos.
Atualmente, a radiação em pequenas doses repetidas está sendo proporcionalmente comparada ao impacto da bomba de Hiroshima. Apesar de haver parâmetros, o resultado depende de cada indivíduo. De qualquer modo, esses exames devem ser usados com cautela, avaliando o risco-benefício da sua indicação.
Os efeitos das radiografias e tomografias podem incluir catarata precoce, radiodermite e aumento na incidência de câncer. Trabalhos internacionais evidenciam o crescimento no número de tumores de partes moles, como aqueles da tireoide, do sistema linfático, do sistema nervoso central, melanoma e linfoma.
Risco 24% maior de desenvolvimento de carcinoma cerebral ou leucemia
Recentemente, uma pesquisa da Escola Superior de Tecnologia e Saúde de Coimbra (ESTeSC), ligada à Universidade de Coimbra, permitiu implementar novas práticas nos exames de radiologia e diminuir o risco de radiação em exames nas crianças. De acordo com o estudo, o risco de aparecimento de um carcinoma cerebral ou leucemia pode ser diminuído em 24% por meio da redução de radiação nos exames pediátricos de tomografia computorizada.