Convivendo com o enfisema pulmonar

por Redação | 10/08/2022 - 00h

Profa. Dra. Sônia Peron
Especialista em Pneumologia, assistente mestre da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da
PUC-SP e integrante da área de Pneumologia do Internato do curso de Medicina da instituição

 

É cada vez mais comum que as pessoas fumantes procurem o médico porque leram em algum lugar que o cigarro leva a uma doença terrível e incurável, denominada enfisema pulmonar. Elas desejam saber se são candidatas a ter essa enfermidade.

A resposta é sim – e a principal causa do enfisema pulmonar é o cigarro. Existem outras causas, como a exposição prolongada à fumaça do fogão à lenha e aos poluentes ambientais e, até mesmo, uma forma rara da doença, de origem genética, que acomete pessoas mais jovens.

Geralmente, o enfisema pulmonar não ocorre sozinho: ele costuma cursar com a bronquite crônica. A essas duas enfermidades, dá-se o nome de doença pulmonar obstrutiva crônica ou DPOC.

Estudos científicos demonstram que uma tragada de cigarro contém mais de 4.700 substâncias tóxicas e 1016 radicais livres. A repetição contínua dessas agressões pode lesar as células do aparelho respiratório, provocando o aumento da produção de muco (catarro) pelos brônquios e fibrose dos bronquíolos – a chamada bronquite crônica. Paralelamente, elas provocam a destruição dos alvéolos (região dos pulmões onde ocorrem as trocas gasosas entre o oxigênio e o gás carbônico), que é o enfisema pulmonar.

Vamos entender primeiro, quais são os sintomas da DPOC, particularmente, quando há predomínio do enfisema pulmonar sobre a bronquite crônica. O enfisema pulmonar não se manifesta subitamente. Trata-se de uma doença respiratória crônica que aparece após muitos anos de tabagismo. Os sintomas podem passar despercebidos por muito tempo, ou até serem atribuídos a outras causas.

Na maioria das vezes, o portador de enfisema pulmonar tem mais de 50 anos de idade e apresenta como sintoma principal a falta de ar, que, inicialmente, aparece ao praticar grandes esforços. Geralmente, esta pessoa não valoriza esse sintoma. Ela o justifica pela idade e pelo sedentarismo, deduzindo que precisa praticar alguma atividade física aeróbica e que, assim, logo irá melhorar.

Esta pessoa convida, então, seu (sua) companheiro(a) ou algum(a) amigo(a) da sua faixa etária para caminhadas ao ar livre, o que, segundo ela, será saudável e uma oportunidade para colocar a conversa em dia. Porém, perceberá que precisa andar mais devagar do que sua companhia e, assim, na maioria das vezes, acaba desistindo dessa atividade física.

Com o tempo, a falta de ar também a limitará em sua rotina diária, como ao subir as escadas da sua casa ou em suas atividades corriqueiras, como arrumar a cama ou fazer uma manobra mais difícil enquanto está dirigindo. Poderá se agravar ao ponto de ter falta de ar para tomar banho e até para se abaixar e amarrar os sapatos. Muitas vezes, a pessoa atribuirá esses sintomas a problemas no coração e marcará uma consulta com um cardiologista. E qual será a sua surpresa? O médico identificará que o problema é nos pulmões e a encaminhará ao pneumologista.

Desse especialista, ela só começou a ouvir falar após a pandemia da Covid-19. Porém, como não tem tosse, chiado no peito ou dor para respirar, seria mesmo um problema respiratório? Bem, isso pode ocorrer se o enfisema predominar sobre a bronquite crônica.

Além da história clínica evolutiva e dos achados do exame físico dos pulmões, o pneumologista lançará mão de exames complementares, como a avaliação da capacidade respiratória (espirometria), geralmente feita no próprio consultório do especialista; radiografia simples do tórax e, em caso de dúvida, poderá solicitar outros mais sofisticados, como a tomografia computadorizada do tórax, capaz de diagnosticar até os casos leves de enfisema pulmonar (ou seja, quando a pessoa ainda não apresenta sintomas).

E quanto ao tratamento? Primeiramente, é imprescindível que a pessoa pare de fumar, para interromper as agressões pulmonares decorrentes do tabagismo. O pneumologista pode ajudar nessa empreitada. Na dependência dos sintomas e dos resultados dos exames, é possível que a pessoa precise usar medicamentos que dilatem os brônquios e bronquíolos. Atualmente, existem vários medicamentos disponíveis, sendo que a maioria deles é fornecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde, por meio da Farmácia de Alto Custo.

Por fim, vem a pergunta: “Doutora, eu tenho cura?”. A resposta pode não ser tão simples. A bronquite crônica tende a melhorar muito com a cessação do tabagismo e com o tratamento medicamentoso. Em alguns casos, pode até reverter. Já a destruição dos alvéolos, que é o enfisema, é irreversível!

Na maioria dos casos e na dependência do grau do enfisema pulmonar, a pessoa poderá conviver com o problema. Contudo, em casos muito avançados, pode necessitar do uso contínuo de oxigênio domiciliar.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no mundo. O cigarro é responsável por 63% dos óbitos relacionados às doenças crônicas não transmissíveis.

Destas, o tabagismo reponde por 85% das mortes por doença pulmonar crônica (bronquite e enfisema), 30% das doenças relacionadas a diversos tipos de câncer (pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga, colo de útero, estômago e fígado), 25% das doenças coronárias (angina e infarto) e 25% de doenças cerebrovasculares (derrame).

As campanhas contra o tabagismo são feitas mundialmente e o Brasil é referência pelo êxito nas políticas de combate a este problema. Segundo dados do Ministério da Saúde, o país vem registrando uma expressiva redução de fumantes nos últimos 25 anos, que passaram de 43,3% em 1989 para 18,9% em 2013 (homens) e de 27% para 11% (mulheres) no mesmo período.

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