Ex-aluno é curador de projeto artístico sobre consumo excessivo
Psicanalista João Bosco de Camargo Millen fez doutorado e pós-doutorado na PUC-SP

Ex-aluno de doutorado e pós-doutorado em Filosofia, o psicanalista João Bosco de Camargo Millen (foto) é curador de projeto artístico que estará, a partir de maio, em cartaz na Vitrine do Metrô São Bento de São Paulo.
Com a obra “Cachoeira”, de Cadumen (Claudio Carlos Mendonça, Nova Esperança/PR, 1969), o projeto aborda o consumo excessivo na sociedade, Como parte das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, e estará na estação de metrô que tem saída para a rua 25 de março, maior polo de comércio popular do Brasil.
Cadumen é artista urbano, diretor de arte e artista visual contemporâneo, que produz pinturas, esculturas e instalações. Pintou murais nos Jogos Olímpícos Rio 2016, em Chengdu/China e Fafe/Portugal. Participou de exposições coletivas na Galeria Qaz Street Art e Gabba Gallery Los Angeles/USA. Realizou também residência artística no SESI Franca, exposição de esculturas no The Town Festival e no Metrô de São Paulo. Suas obras fazem parte coleções de arte no Brasil e no exterior.
Leia a seguir o texto da curadoria de Millen
CACHOEIRA
Primeiramente, peço licença ao leitor para gozar da liberdade de construir esta resenha de forma despojada, na intenção de mantermos intacta a atmosfera proposta pelo artista. Não é possível concebê-la de outra maneira, afinal, ele é um muralista e traz-nos o discurso do graffite, uma potente e abrangente linguagem das ruas metropolitanas. Além disso, o artista adverte que o tema descrito nestas linhas é de responsabilidade de todos, portanto, aqui está o que acreditamos ser de fato de caráter coletivo, à luz de informações coloquiais. Ao nos depararmos com a instalação/protesto "Cachoeira", do artista plástico Cadumem, podemos olhar para nosso próximo destino, além de perceber também um pequeno recorte na história da arte brasileira daquilo que já foi produzido sobre algumas temática relativas aos entraves entre o capital versus a natureza. Muitas foram as vozes que nos chamaram a atenção para a péssima tentativa de entrosamento entre dinheiro e progresso em detrimento de preservação do meio ambiente. O pintor/escultor alemão naturalizado brasileiro Frans Krajcberg (1921-2017) dedicou a sua vida a estar na floresta e a testemunhar as atrocidades dos seres humanos, com ataques permanentes à flora e à fauna brasileiras. Na efervescência da década de 1970, muitos representantes artísticos, da música à pintura, entoavam em uníssono a crença no refrão de Caetano Veloso, "a força da grana destrói coisas belas". A arte é sempre a senhora da consciência. Se em alguns casos mostrou-se aparentemente impotente, era porque construía estratégias para prosseguir naturalmente em seu curso vitorioso. Sim, enquanto ferramenta de protesto, solucionou complicadas questões impossíveis de serem resolvidas por outros viéses; mas, com relação a essa temática, ela ainda continua gritando. Esta questão é uma espécie de corrida de bastão empunhado por diversos artistas. A possibilidade de pensarmos que há uma violência imperante, fruto da ganância desenfreada, põe os adversários artistas e militantes a postos contra a industrialização da vida. A grandiosidade dos espaços naturais é por vezes reduzidas à menor parte da questão, a da beleza imponente. São apelos comerciais destinados a turistas, para que visitem as reservas naturais das Cataratas do Iguaçu, do Niagara Falls ou do parque nacional do Grand Canyon, com a advertência de que, ao término da visita, não podem deixar de adquirir as estranhas t-shirts , moletons, chaveirinhos, repelentes, pantufas e todas as outras parafernálias expostas nas vitrines da lojinha. A instalação de Cadumen cria brilhantemente esse clima/crítica de toma lá da cá, sugerindo-nos observar a cachoeira da instalação e, logo em seguida, entretermo-nos com as suas estranhas e maravilhosas assemblages. Ali, Cadu remonta um estranho e indigesto lugar, fazendo-nos refletir sobre a inospitabilidade do mundo, que não nos atinge por causa de uma cegueira psíquica que estamos adquirindo. É um universo tenso, repleto de avisos e advertências. Não bastassem as imagens, a descrença no bom senso humano faz com que o artista nos envie mensagens escritas, alertando-nos contra os perigos do consumo desenfreado. Seguindo a proposição dialógica entre diferentes manifestações artísticas, imerso em referências de artistas / militantes, os dizeres de Cadu esparramados por sobre a cachoeira trazem à memória outro artista que fez da sua obra uma crítica ao modus operandi capitalista: as palavras de Cadumem assemelham-se aos versos do poema "Verdura", de Paulo Leminky. "De repente Arte visual, literatura: intervenção humana diante da falta de humanidade. (João Bosco Millen) |