Ana Lúcia Torre emociona ao transformar canções de Chico Buarque em autobiografia
Espetáculo une teatro, música e autobiografia em uma experiência íntima que ganha força...
Espetáculo une teatro, música e autobiografia em uma experiência íntima que ganha força extra ao ocupar o mesmo espaço onde atriz e compositor iniciaram parte de suas trajetórias artísticas
Há espetáculos que se assistem. Outros, atravessam o espectador. Olhos nos Olhos, em cartaz no Teatro Tucarena até 2 de agosto, pertence à segunda categoria. Sob direção de Sergio Módena, Ana Lúcia Torre celebra seus 80 anos de vida e 60 de carreira ao transformar a obra de Chico Buarque em narrativa teatral. Depois da temporada paulistana, a montagem seguirá em turnê pelo país.
Desde os primeiros minutos, Ana Lúcia Torre estabelece um pacto silencioso com a plateia. Olhos nos olhos é mais do que referência à conhecida canção de Chico Buarque: é um convite ao encontro. A atriz olha para o público e, em troca, recebe olhares que completam o espetáculo. Dessa troca nasce uma experiência ao mesmo tempo delicada e intensa.
Ana Lúcia revisita a própria vida tendo as letras de Chico como fio condutor. As canções deixam de ser números musicais para assumir a função de texto dramático, costurando lembranças, afetos e acontecimentos de uma geração marcada pela ditadura militar, pela redemocratização e pelas transformações sociais do Brasil.
Assistir à montagem no Tucarena acrescenta uma camada rara de significado. Foi na PUC-SP que Ana Lúcia Torre, então estudante de Ciências Sociais, encontrou o jovem Chico Buarque durante a histórica montagem de Morte e Vida Severina.
Décadas depois, o reencontro simbólico acontece justamente no espaço que testemunhou parte daquela trajetória. O espetáculo ganha, assim, um valor que ultrapassa a cena e dialoga com a própria memória da Universidade.
Aos 81 anos, Ana Lúcia Torre impressiona pelo vigor cênico. A voz permanece firme, o gesto é preciso e cada palavra encontra exatamente o peso necessário. Mesmo quando aborda perdas, rupturas e desencantos, como nos versos de Atrás da Porta, a atriz jamais cede ao excesso dramático. Sua interpretação suaviza a dor sem diminuí-la, permitindo que a poesia alcance o espectador com rara naturalidade.
Entre os momentos mais emocionantes está o relato sobre a maternidade aos 40 anos. Ao recordar os medos impostos por uma gravidez, considerada pela sociedade da época de risco em razão da idade, Ana Lúcia aproxima sua história da poesia de Meu Guri. O contraste entre sua experiência e a maternidade retratada por Chico amplia o alcance da cena, revelando diferentes formas de amar, cuidar e enfrentar o tempo.
Também merece destaque a interpretação de Geni e o Zepelim, que conduz uma reflexão sensível sobre preconceito, intolerância e violência contra mulheres e pessoas historicamente marginalizadas. A crítica nunca se sobrepõe à poesia; nasce dela, fazendo com que temas ainda atuais ecoem sem perder a delicadeza.
Ao recuperar versos que evocam censura e repressão em Cálice, a atriz também revisita um período vivido por sua geração e pela própria PUC-SP. Não há reconstrução histórica, mas memória compartilhada. A obra de Chico permanece contemporânea justamente porque continua falando de um país que ainda reconhece muitas de suas contradições.
Olhos nos Olhos não é um recital, nem uma biografia teatral. É o encontro de trajetórias que ajudam a contar parte da história brasileira. No Tucarena, esse diálogo ganha uma dimensão singular. O palco parece devolver aos artistas e ao público fragmentos de 80 anos de história: da atriz (81 anos), do poeta (82 anos) e da PUC-SP (80 anos).
Quem passar pelo Tucarena até 2 de agosto encontrará mais do que um espetáculo comemorativo. Encontrará uma atriz em pleno domínio de sua arte e a confirmação de que a poesia, quando encontra a interpretação certa, continua sendo capaz de iluminar o presente.