Incongruência de gênero na infância e a psicologia

Para o prof. Alexandre Saadeh, "expor alunos de graduação em Psicologia ao fenômeno e ao contato com crianças e adolescentes transgêneros tem se mostrado enriquecedor na formação".

por Alexandre Saadeh | 30/09/2019 - 00h

Leia a seguir texto do prof. Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Núcleo de Psicologia e Psiquiatria Forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e professor no curso de Psicologia da PUC-SP:

  

Incongruência de Gênero na Infância e a Psicologia

Prof. Dr. Alexandre Saadeh

Muitos estudiosos se perguntam sobre esse tema. Mais interessante é que a grande maioria nunca trabalhou, atendeu ou acompanhou uma criança com esse diagnóstico. Sim, um diagnóstico, pois garante acesso à saúde e impede ações punitivas e cruéis com as crianças. Diagnóstico é quase sempre confundido com doença, o que não é verdade. Trata-se de um simples reconhecimento de algo que tem características próprias e que merece atenção da saúde. Nem sempre uma doença, mas que precisa ser reconhecido como diagnóstico para ser merecedor de intervenção médica. Se não é uma questão estética ou cosmética.

Alguns psicólogos, mais ligados à psicanálise, criticam esse diagnóstico pois acreditam que impeça o real desenvolvimento da sexualidade infantil. Geralmente atenderam poucas crianças que talvez tivessem esse diagnóstico ou nenhuma. Comportamento expresso cross-gender é diferente de ter incongruência de gênero. Comportamentos cross-gender são comuns na infância de homossexuais e mesmo na infância de hetero ou bissexuais. Comportamento não é diagnóstico. A noção de profundidade, intensidade, persistência e consistência na vivência da identidade de gênero com a qual a criança se reconhece é que dita o diagnóstico. E a possibilidade de uma criança vivenciar a identidade de gênero com a qual se reconhece é fundamental no asseguramento de sua autonomia e existência. Quanto mais jovem a criança, maior necessidade de acompanhamento, apesar de existirem crianças com profunda vivência de gênero incongruente com seu sexo de nascimento. No acompanhamento realizado, ninguém diz quem a criança é; só respeitamos quem ela diz ser.

Conheço a história de uma psicóloga que se diz especialista na área e psicanalista, que impediu uma criança de se nomear como menina. Não entendo nem reconheço a psicanálise de tal atitude, mas ela foi tomada baseada, segundo a profissional, em conceitos psicanalíticos.

O mesmo cabe dizer sobre o bloqueio hormonal da puberdade e a hormonização cruzada aos 16 anos de idade. As críticas vêm de psicólogos que questionam a base biológica de uma série de transtornos mentais, mas nesse caso afirmam que isso impediria as crianças de desenvolverem sua sexualidade adequadamente, pois impediria a ação dos hormônios biologicamente programados para ela, mas não enxergam o sofrimento que existirá por trás da transformação corporal indesejada e cruel com sua identidade de gênero, naqueles púberes e adolescentes que têm o diagnóstico.

O mesmo se dá com os adeptos incontestes da “Teoria Queer”, que não aceitam a base biológica do fenômeno, especialmente quando se relaciona com a infância.

Por isso, expor alunos de graduação em Psicologia ao fenômeno e ao contato com crianças e adolescentes transgêneros tem se mostrado enriquecedor na formação, estruturação de postura crítica, ampliação de vivências em realidades distintas e não padrão, no período de graduação e ligado a uma disciplina curricular fundamental, Psicopatologia. As visitas ao AMTIGOS-IPq-HCFMUSP (Ambulatório Transdisciplinar de identidade de Gênero e Orientação Sexual do instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) têm se revelado uma experiência importante na formação de novos psicólogos, pois propõe a visão transdisciplinar de um fenômeno que não deveria opor e não opõe a Psiquiatria e a Psicologia como ramos do conhecimento. Ao contrário, se propõe a integrar essas áreas do conhecimento científico.

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