Entre algoritmos e humanidade: o debate proposto por Leão XIV em sua primeira encíclica

Docentes da PUC-SP avaliam os impactos éticos, sociais e culturais do documento papal que discute os limites e responsabilidades do avanço tecnológico

por Cláudio Oliveira | 29/05/2026

A divulgação da encíclica Magnifica Humanitas, primeiro documento magisterial de grande alcance do Papa Leão XIV, coloca a inteligência artificial no centro das reflexões da Igreja Católica sobre os desafios contemporâneos. Publicada em 25 de maio, a carta papal aborda os impactos das novas tecnologias sobre o trabalho, a democracia, a educação, a economia e as relações humanas, defendendo que o desenvolvimento tecnológico permaneça subordinado à dignidade da pessoa humana. O Cardeal Arcebispo de São Paulo e Grão Chancelar da PUC-SP, Dom Odilo Pedro Scherer, e especialistas da Universidade avaliam o alcance do documento e sua relevância para o debate público.

Uma encíclica é um dos documentos mais importantes produzidos por um papa. Tradicionalmente destinada aos bispos e aos fiéis católicos, ela costuma extrapolar os limites da Igreja e dialogar com toda a sociedade sobre temas de grande relevância moral, social ou cultural. Ao longo da história, encíclicas marcaram posicionamentos da Igreja sobre questões decisivas de cada época.

Em Magnifica Humanitas, Leão XIV volta sua atenção para a revolução tecnológica impulsionada pela internet, pelos algoritmos e pela inteligência artificial. A escolha do tema remete diretamente ao legado de Leão XIII, autor da histórica Rerum Novarum (1891), documento que lançou as bases da Doutrina Social da Igreja ao abordar os impactos da Revolução Industrial sobre o mundo do trabalho.

Tradição Histórica

Para o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, a nova encíclica representa uma continuidade dessa tradição de reflexão social diante das transformações históricas. “A Magnifica Humanitas é uma encíclica social de forte teor antropológico, que vai aos fundamentos das questões sociais: a pessoa humana, sua natureza e dignidade, que estão no centro das preocupações sociais da Igreja”, afirma em artigo publicado pela Vatican News, agência de notícias do Vaticano. 
Segundo Dom Odilo, o documento alerta para questões que já se fazem presentes no cotidiano das sociedades, como a concentração de poder tecnológico em poucas empresas, os impactos da inteligência artificial sobre o emprego e os riscos associados ao uso militar dessas ferramentas. “Não se trata de condenar e temer os avanços tecnológicos, que são frutos admiráveis da capacidade humana. Uma tecnologia, em si, não é boa nem má. O julgamento moral depende sempre do uso que dela se faz”, observa o Cardeal.

Ele destaca ainda que a encíclica propõe um critério fundamental para avaliar os avanços tecnológicos: “A técnica não deve ser julgada apenas com base na sua eficácia, mas a partir da qualidade humana, social e espiritual dos vínculos que ela promove ou destrói”.

Um novo humanismo digital

Na avaliação do prof. Pe. Ulisses Leva (Teologia), a encíclica surge em um momento decisivo para a humanidade, marcado por transformações comparáveis — e talvez até superiores — às provocadas pela Revolução Industrial. “É uma encíclica muito importante para o momento que estamos vivendo. A tecnologia tem hoje um papel de transformação talvez maior do que o da Revolução Industrial. O Papa Leão XIV resgata uma perspectiva profundamente humanista, lembrando que a tecnologia deve somar à experiência humana, e não substituí-la”, afirma.

O docente destaca que o documento recoloca a pessoa humana no centro do debate sobre inovação tecnológica. “Existe hoje uma narrativa recorrente sobre a obsolescência do ser humano diante das máquinas. A encíclica vai na direção oposta, defendendo a proteção daquilo que é essencialmente humano e reafirmando a necessidade de preservar nossa identidade, nossa dignidade e nossa capacidade de decisão”, diz.

Para Pe. Ulisses, um dos méritos do texto é reconhecer que a tecnologia não possui valor moral em si mesma. “A inteligência artificial não é boa nem má. Tudo depende das escolhas que fazemos. A tecnologia pode servir ao bem comum, mas também pode ampliar desigualdades e concentrações de poder. Por isso, a reflexão ética é indispensável. ”

Inteligência artificial exige pensamento crítico

Especialista em inteligência artificial e professor do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital-TIDD e Comunicação e Semiótica da PUC-SP, Diogo Cortiz considera que a encíclica inaugura uma reflexão necessária sobre os limites e as possibilidades da tecnologia. “Leão XIV compreende que estamos diante de uma transformação profunda. Sua formação em ciências exatas contribui para uma leitura sofisticada desse fenômeno. A encíclica recupera o caráter humano da discussão tecnológica e mostra que a inteligência artificial deve ser uma ferramenta de apoio, nunca um substituto da pessoa”, afirma.

Cortiz observa que o documento percorre temas que vão da educação à democracia, passando pela guerra, pela cultura e pelo trabalho. “A encíclica propõe que olhemos para a humanidade como humanos. Ela faz uma crítica ao transumanismo e à ideia de aperfeiçoar o ser humano a qualquer custo, lembrando que o progresso tecnológico precisa estar vinculado a valores éticos e sociais.”

O pesquisador também chama atenção para as competências que se tornam ainda mais relevantes em um cenário de crescente interação entre pessoas e sistemas inteligentes. “Nunca na história da humanidade o repertório das pessoas foi tão importante. Pensamento crítico, metacognição e formação cultural sólida passam a ser diferenciais fundamentais. O valor de uma pessoa diante da inteligência artificial está justamente naquilo que ela é capaz de questionar, interpretar e criar. ”

Defesa da dignidade humana

Ao longo de suas páginas, Magnifica Humanitas alerta para riscos como vigilância excessiva, desemprego estrutural, concentração de dados, manipulação algorítmica e uso bélico da inteligência artificial. Ao mesmo tempo, reconhece os benefícios que essas tecnologias podem proporcionar à saúde, à educação, à ciência e à qualidade de vida.

A encíclica sustenta que os avanços tecnológicos devem estar a serviço da humanidade e não o contrário. Nesse sentido, reafirma um princípio histórico da Doutrina Social da Igreja: o desenvolvimento só pode ser considerado autêntico quando promove a dignidade da pessoa humana e o bem comum.

Ao lançar seu primeiro grande documento social, Leão XIV sinaliza uma das marcas centrais de seu pontificado: a busca por respostas éticas e humanistas para os desafios da era digital. Em um contexto de rápidas transformações tecnológicas, Magnifica Humanitas propõe uma reflexão que ultrapassa os limites da comunidade católica e convida toda a sociedade a pensar sobre o futuro da condição humana.
 

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