PUC SP na Mídia: Rejeição de indicado ao STF abre debate sobre efeitos institucionais
Prof. Georges Abboud comenta ao Times Brasil as implicações da decisão do Senado.
Artigo de autoria dos docentes Maria Helena Senger e João Carlos Ramos-Dias
Endocrinologistas
Professores titulares da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP (FCMS)
Embaixadores do programa #BOMBATÔFORA
O fim do século XIX e o início do XX foram palco para descobertas como os raios X e a radioatividade, com cientistas como Röntgen, Becquerel e o casal Marie e Pierre Curie sendo premiados com Nobels. Eram anos de progresso científico e o fascínio pelos raios X se estendeu a várias áreas da sociedade, como sapatarias para verificar o contorno do pé e até salões de beleza para remoção de acne e clareamento da pele1.
A radioatividade seguiu caminho similar, sendo usada em produtos de beleza e revitalização. Muitos produtos sequer tinham o rádio em sua composição. O tônico Radithor continha rádio. Vendido a preço alto, prometia curas milagrosas para fadiga e impotência sexual. A morte por câncer do golfista e empresário Ebner M. Byers em 1931, ávido consumidor do Radithor, encerrou esse comércio e levou à criação de regulamentos para radiofármacos2.
Embora essas descobertas científicas tenham trazido benefícios (radioterapia, exames de imagem), seu mau uso e a divulgação de falsas propriedades resultaram em charlatanismo. Pessoas como Byers se tornaram cobaias humanas, mas suas trajetórias ajudaram a avançar na pesquisa científica e no controle do uso desses componentes.
E os esteroides anabolizantes? Não são radioativos, mas também têm sido objeto de fascínio. Esteroides são moléculas fundamentais à vida, incluindo os sexuais, glico e mineralocorticoides, cada um com suas funções específicas. A testosterona, um esteroide sexual natural, tem importante função anabólica, estimulando o crescimento muscular, o aumento da massa óssea e a síntese de proteínas. Os esteroides anabolizantes sintéticos foram desenvolvidos para tratar condições médicas como perda de massa muscular e distúrbios hormonais.
No entanto, tem aumentado o uso de esteroides anabolizantes para fins não terapêuticos, como melhoria de desempenho atlético e estética corporal com efeitos adversos graves, incluindo problemas cardiovasculares, impotência, infertilidade e distúrbios psiquiátricos. Um estudo dinamarquês, recém publicado no JAMA3, revelou que usuários de esteroides anabolizantes têm 3,64 vezes mais chances de morrer por causas não naturais (principalmente acidentes) e 2,24 vezes mais chances de morrer por causas naturais do que não usuários.
E não há dose segura! Mesmo doses pequenas trazem complicações, pois a harmonia do controle de produção e ação desses hormônios é tão sutil, delicada e elegante que, se rompida, nem sempre é restaurada. E resultados laboratoriais baixos nem sempre traduzem produção insuficiente e necessidade de tratamento.
Atualmente o deslumbre pelos esteroides anabolizantes reflete a busca pelo caminho fácil e rápido para a cura de males, vigor físico e sexual. Amplamente divulgada pela mídia e por "influenciadores de opinião", tais falácias têm sido alimentadas por autoproclamados especialistas, médicos e não médicos, e por uma avalanche de desinformação. Criam-se cursos, conceitos médicos são renomeados com jargões publicitários redundantes, criando um glamouroso (e perigoso) tapete vermelho no qual desfilam egos a custos elevados. Ou seja, faltam educação, controle e regulação, mesmo após um século do Radithor!
O uso indevido e antiético dos esteroides anabolizantes cria um ambiente para que as pessoas se tornem cobaias, contribuindo, inadvertidamente, para o avanço científico através de seus comportamentos de risco e de sofrimentos (incluindo os financeiros, privados e públicos). Uma pena, mas nesse momento tão propício, as apostas estão abertas.
1Lima RS & Afonso JC. Raios-x: fascinação, medo e ciência Quim. Nova, 32(1):263-70, 2009