Estudantes da Medicina no Cazaquistão

Alunos participaram da "Global Conference on Primary Health Care"

por Redação | 12/11/2018 - 00h

Vinícius Leal Gervásio e Guilherme Borges Gomes da Silva – alunos do quarto e terceiro ano do curso de Medicina, respectivamente – foram selecionados para compor a delegação de jovens do Programa Diplomacia Civil, coordenado pelo Instituto Global Attitude, que representou o Brasil durante a Global Conference on Primary Health Care. O evento foi realizado na cidade de Astana, no Cazaquistão, nos dias 25 e 26 de outubro.

Ao todo, seis universitários brasileiros formaram a delegação, todos ligados à área da saúde. A conferência foi promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo governo do Cazaquistão, e reuniu profissionais, autoridades públicas, pacientes e membros da sociedade civil e da Organização das Nações Unidas (ONU). O intuito foi renovar o compromisso com a Atenção Primária à Saúde, firmado em Alma-Ata, em 1978 (que iniciou um movimento global nesse sentido), e traçar estratégias para o mundo alcançar a cobertura universal de saúde e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável definidos pela Agenda 2030.

Para custear a viagem e estadia no Cazaquistão, Vinícius e Guilherme precisaram ser determinados e criativos. Vinícius é bolsista integral do Programa Universidade para Todos (Prouni) e foi quem teve primeiro a ideia de realizar uma vaquinha virtual. “Era no sistema ‘tudo ou nada’. Ou seja: se, em trinta dias, não conseguíssemos arrecadar os recursos necessários, todos os doadores receberiam de volta seu dinheiro”, explica. Em vinte dias, a iniciativa atingiu o propósito – graças, também, à ajuda da PUC-SP, dos colegas e de diversos professores, inclusive de outros campi.

“O apoio institucional da PUC-SP traduz a importância atribuída pela Universidade (por meio de seus docentes, gestores acadêmicos e administrativos) à participação dos dois estudantes neste evento internacional”, afirma a pró-reitora de Graduação, profa. Alexandra Geraldini.

 

Mudança de visão

Vinícius revela que começou a se interessar pelos temas Saúde Pública e Saúde Global quando passou pelo estágio em Saúde Coletiva, em seu primeiro ano do Internato. “O impacto que o meio exerce sobre a saúde das pessoas – como, por exemplo, a pobreza e outras condições de vida que chamamos de determinantes sociais, que pude ver na prática – me chama muito a atenção e me preocupa não só enquanto futuro profissional de saúde, mas também como cidadão”, posiciona-se.

Foi justamente esse interesse que contribuiu para que ele mudasse a visão que tinha sobre a profissão, quando ingressou na faculdade. “No começo, pensava em ser um médico mais especialista e tinha uma visão muito restrita das necessidades das pessoas, mas isso mudou”, confessa. Vinícius indica que, hoje, pensa em praticar uma medicina mais próxima das pessoas e de onde elas vivem.

Guilherme, por sua vez, sente-se atraído para atuar, no futuro, diretamente nas esferas que determinam as políticas públicas de saúde. “Após formado, me vejo como um agente que pode interferir na saúde pública, especificamente em sua gestão. Desejo poder tomar decisões nesse sentido e, assim, conseguir influir exatamente nos determinantes que impactam na saúde e qualidade de vida da população”, conta. “Aliás, investir em saúde também ajuda no combate à pobreza”, destaca.

“Os cursos de nossa Universidade têm vocação humanista e prepararm efetivamente seus estudantes para um exercício profissional ético, competente e engajado nas questões de cidadania. Vinicius e Guilherme mostraram nossos diferenciais – assim como os deles – e merecem nossa admiração”, ressalta a pró-reitora.

 

Ritmo intenso

Segundo os universitários, foram dois dias intensos no Cazaquistão. “As atividades começavam às 8 horas e só terminavam por volta das 19h30”, lembra Vinícius. “Eram plenárias e sessões paralelas, com a participação de ministros de Estado, estudantes, profissionais de diversas áreas e autoridades que discutiam desde os novos desafios da Atenção Primária à Saúde, relacionados ao envelhecimento populacional, aumento da carga global de doenças crônicas e demanda por cuidados paliativos, até as interfaces da cobertura universal à saúde com a inovação tecnológica e o setor privado, por exemplo”, diz o quartanista.

A conferência no Cazaquistão também desempenhou papel importante no âmbito estratégico da Agenda 2030, pois reafirmou o compromisso firmado na primeira delas (Alma-Ata, em 1978), de fortalecer a Atenção Primária à Saúde no mundo todo como a principal estratégia para alcançar a cobertura universal à saúde em trinta anos. O lema era Não deixar ninguém para trás.

“Em 1978, discutiram o que fazer, mas, desde então, todo progresso se deu de forma desigual. Hoje, pelo menos metade da população mundial não tem acesso aos serviços de saúde mínimos. Assim, diria que, no Cazaquistão, o enfoque foi como fazer, extraindo lições aprendidas nos últimos quarenta anos”, resume Guilherme.

No contexto dos avanços mundiais na Atenção Primária à Saúde, o Brasil tem posição de destaque. "Apesar de não ter sido signatário da declaração de Alma-Ata, a nossa Constituição de 88 se inspirou nela para cristalizar a saúde como direito de todos e dever do Estado”, lembra Vinícius.

“Nosso país tem sido um dos críticos da declaração de Astana e tem denunciado que a cobertura financeira baseada numa cesta de serviços ou, até mesmo, em seguros de saúde low-cost, não garante o acesso aos serviços de acordo com as necessidades de saúde da população e perpetua as desigualdades sociais", relata Vinícius.

Quando tiveram a oportunidade de conversar reservadamente com algumas autoridades, os estudantes da PUC-SP foram interpelados sobre os rumos da saúde no Brasil. “Elas se mostraram preocupadas com o retrocesso em políticas sociais associadas ao ideário de austeridade econômica e instabilidade política pela qual passamos. Isso tudo pode afetar negativamente os indicadores sociais e de saúde brasileiros, que, até então, vinham mantendo posição de destaque no cenário internacional", avalia Vinícius.

O final da Global Conference on Primary Health Care produziu um documento que foi denominado Declaração de Astana. Por meio dela, espera-se que os países desenvolvam ações voltadas para alcançar, até 2030, a cobertura universal à saúde via atenção primária.

Ao retornarem ao Brasil, Guilherme e Vinícius contaram que a experiência foi enriquecedora. “Voltei do Cazaquistão com uma visão muito mais ampla sobre o tema central do evento”, afirma Guilherme. “Abriu uma porta que até então eu não conhecia, ou seja, de como decisões de cúpula, como as tomadas na esfera da OMS, podem desencadear políticas públicas em todos os cantos do planeta”, conclui.

Ao serem indagados sobre que tipos de médicos serão ao se formar, Vinícius diz: "Quero continuar atento às necessidades dos pacientes e aos determinantes de saúde, a fim de elevar o impacto da minha atuação como profissional da saúde". Guilherme, por sua vez, afirma: “Pretendo estar próximo às demandas locais e aos pacientes e, assim, levar questões importantes para uma esfera na qual as decisões são tomadas e as políticas públicas, estabelecidas”, finaliza.

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