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Texto do prof. Eugênio Trivinho (Comunicação e Semiótica)
JESÚS MARTIN-BARBERO (1937-2021)
Elogio hispânico à alma latino-americana
A notícia surpreendeu a comunidade internacional das ciências humanas e sociais, especialmente a da área de Comunicação: faleceu em 12 de junho passado, aos 83 anos, Jesús Martin-Barbero.
Ao anunciar a grande perda, o jornal El Tiempo, da Colômbia, vinculou a morte à Covid-19, fato depois confirmado por outros veículos. A causa mortis indica aparente fatalidade. Barbero poderia estar conosco não fosse o abrandamento governamental das restrições sanitárias na Colômbia para o combate ao Sars-CoV-2.
Desde 2007, leciono a disciplina “Teorias Críticas da Comunicação” no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. De los medios a las mediaciones é imprescindível na bibliografia, como representação inventiva dos estudos culturais latino-americanos, em vertente autônoma à da origem britânica dos anos 1960 e seus desdobramentos estado-unidenses. Fundamental, a obra, publicada aos 50 anos de Barbero, articula, de modo maduro e peculiar, os esteios recorrentes do autor em sua longa trajetória de publicações: semiologia e antropologia cultural, filosofia e sociologia políticas, e história contemporânea. Como o título o indica, a reflexão de Barbero propõe uma transição de foco na cadeia sociofenomenológica da comunicação eletrônica (rádio e TV à frente): as complexas mediações institucionais, econômicas, socioculturais e morais influenciam mais os contextos de recepção do que a vontade determinadora dos emissores. A relativização destes últimos enfatizou, com erudição, o descarte da velha tese, sempre pueril, da manipulação da consciência de massas.
Não há quem não se encante com a argúcia reflexiva e com a clareza de posicionamento de Barbero.
Intelectual raro e corajoso, tão luminar quanto provocador, este professor visitante de várias Universidades na América Latina e Central, na Europa e nos Estados Unidos soube, como pouquíssimos na área de Comunicação e afins, interpretar, com sensibilidade inovadora, a beleza popular, múltipla e resistente dos povos de nossas terras.
Espanhol de origem, colombiano por amor, seu labor epistêmico redefiniu muitas noções, como povo e nação, classe e massa, poder e hegemonia, entre outras. Essas modulações, feitas na perspectiva das mestiçagens (para além das representações cartesianas e polares), repercutiam um prisma de investigação socialmente comprometido, com implicação total, rigorosa e voluntária do pesquisador. O protagonismo do autor de Comunicación y culturas populares em Latinoamérica e Los ejercicios del ver na difusão dos estudos culturais se consolidou sob o reconhecimento de que a dimensão da cultura radica no coração das lutas sociais. Sua crítica politizada e consistente aos poderes hegemônicos e em favor dos pobres latino-americanos distingue Barbero como um dos maiores intelectuais das ciências humanas e sociais a partir da segunda metade do século XX.
Em especial, sua sofisticada inspiração marxista continuará contribuindo, vivamente e por muito tempo, para combater todas as formas de fascismo, no estirão das regressões históricas correntes.
Quando a generosidade se despede do mundo, a lacuna gesta saudades sem precedentes.
Jesús-Martin Barbero merece todas as condecorações na América Latina e na Europa.
A presente homenagem renova o sentimento de pesar e os votos de força aos(às) amigos(as) da Colômbia, da Espanha e do Brasil, na direção evocativa de um legado teórico e político rico, inspirador e imorredouro.
Eugênio Trivinho
São Paulo, 27/06/2021